
Hoje em dia, falar de ‘Mandamentos’ não parece ser coisa simpática, pois lembra algo negativo, como a vontade de alguém que impõe limites e obstáculos à nossa vida e liberdade.
Inclusive quando falamos de Mandamentos da Lei de Deus.
Quem fez o Catecismo da Igreja Católica talvez ainda se lebre de alguns deles.
São os Mandamentos que se encontram na Bíblia, que derivam de Deus e foram entregues por Ele, através de Moisés, ao povo de Israel, logo após a sua libertação da longa escravidão no Egito (cfr. Êx. 20, 1-17).
Nesse contexto, pois, não podemos ver os Mandamentos de Deus como um limite à vida e à liberdade humana, mas como indicações para permanecer livre e evitar a escravidão.
Dez Mandamentos
Embora na Bíblia os mandamentos não aparecem numerados, depois de muitos debates, convencionou-se que os mandamentos são Dez, conforme a própria Bíblia afirma (Deut. 4,13;10,4).
Fílon de Alexandria e o histórico Flávio Josefo, ambos hebreus do primeiro século depois de Cristo, distinguiram:
- quatro mandamentos que diziam respeito ao relacionamento com Deus e
- seis ao relacionamento com os outros.
Classificação aceita por vários escritores cristãos antigos, como Orígenes, Tertuliano e Gregório de Nazianzo e também pelos protestantes luteranos, calvinistas e anglicanos.
Os católicos aderiram à contagem de Santo Agostinho que reconhecia apenas
- três mandamentos que diziam respeito a Deus, e
- outros sete, relacionados ao próximo.
No século XVI, quando se iniciou a difusão dos catecismos populares, resolveu-se fazer uma lista dos mandamentos para facilitar a sua memorização, como auxílio ao exame de consciência e estímulo da sua prática, para a vida espiritual.
Desta forma, a Igreja, considerada o novo povo de Israel, quanto julgou apropriado, reelaborou e atualizou a lista dos dez mandamentos para a vida moral dos cristãos católicos.
Por isso, a lista dos Mandamentos da Bíblia não coincide exatamente com o que nos ensinam no catecismo, que está na fórmula a seguir:
1°) AMAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS
2°) NÃO TOMAR SEU SANTO NOME EM VÃO
3°) GUARDAR DOMINGOS E FESTAS DE GUARDA
4°) HONRAR PAI E MÃE
5°) NÃO MATAR
6°) NÃO PECAR CONTRA A CASTIDADE
7°) NÃO ROUBAR
8°) NÃO LEVANTAR FALSO TESTEMUNHO
9°) NÃO DESEJAR A MULHER DO PRÓXIMO
l0°) NÃO COBIÇAR AS COISAS ALHEIAS
Esta forma de dividir os Mandamentos foi seguida por quase todos os teólogos e estudiosos medievais e, mais tarde, se impôs à toda a Igreja Católica.
Em todo o caso, aceita-se os Dez Mandamentos encontrados nas Sagradas Escrituras, como totalmente inspirados e retêm em si toda autoridade de Palavra de Deus, sejam eles referentes ao próprio Moisés ou às leis posteriores da vida do povo judeu.
O que importa na verdade é que, tudo o que a Bíblia ensina, seja colocado em prática, que o homem adore somente seu Criador, não prejudique seu próximo e ñ deseje os bens alheios.
Os Mandamentos nos indicam um caminho a ser percorrido e constituem também uma espécie de «código ético» que nos garanta o que, de melhor, podemos fazer; nos inspira na construção de sociedades mais justas, à medida do humano, contra as misérias morais e materiais, que derivam da rejeição de Deus e substituição deste, por tantos ídolos em seu lugar, que nos escravizam.
Ensinam-nos a viver o respeito pelas pessoas; a sermos honestos e sinceros nos relacionamentos; a vencer a avidez do poder, da posse, do dinheiro; a preservar a criação e a alimentar o planeta com ideais elevados, nobres e espirituais.
Não são proibições, somente orientações que nos colocam limites em vista de evitar o que perturba aquela harmonia e segurança em relação ao projeto original do Criador e entre nós.
Os mandamentos de Deus indicam um caminho de liberdade, de paz, de justiça e de dignidade, que encontra sua plenitude na lei do Espírito inscrita por Deus, não mais em tábuas de pedra, mas no coração de cada ser humano (cf. 2 Cor 3, 3).
Os mandamentos vieram de um Deus que nos criou por amor, que fez uma Aliança com a humanidade, que quer somente o nosso bem, dar sentido à nossa vida, nos fazer viver não como escravos, mas livres, como filhos em todas os relacionamentos, com Deus, conosco mesmo e com os outros. Pois a verdadeira liberdade não consiste em seguir o egoísmo, as cegas paixões, mas aquilo que é bom em cada situação.
Os Dez Mandamentos não são um hino ao «não», mas ao «sim»: a Deus, ao Amor, que somente nesse caso é um «não» ao desamor.
O Maior Mandamento
Enquanto no Antigo Testamento, Moisés subiu ao monte Sinai para receber de Deus as tábuas da lei, Jesus realizou o percurso oposto: sendo Ele Filho de Deus, humilhou-se, desceu do céu até a nossa humanidade, não para abolir a Lei antiga, mas para dar-lhe pleno cumprimento e perfeição, um novo enfoque e novo sentido profundo aos Dez Mandamentos e à Aliança com Deus.
Jesus, uma vez perguntado sobre qual seria o maior de todos os mandamentos, respondeu unindo dois mandamentos:
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento.
O segundo é semelhante a esse: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.
E concluiu sua fala, dizendo:
“Toda a lei e os profetas dependem desses dois mandamentos” (cf. Mt 22,40).
Descrito por Jesus, o Amor é o elemento que unifica todos os Mandamentos da Lei. Colocar em prática a os Mandamentos da Lei de Deus consiste, pois, nesse duplo amor: a Deus e ao próximo.
De fato, em 1Jo 4,20-21 se diz:
Se alguém disser:
‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê.
Para o cristão, o amor a Deus e ao próximo é um mandamento inseparável.
Não se trata apenas de um sentimento espontâneo, que nasce naturalmente no coração, mas de um amor incondicional, que não exige nada em troca, que é doado a todos, sempre, até mesmo ao inimigo (Mt 5,44).
Todos queremos ser tratados com amor.
Justamente por isso, devemos também tratar o próximo com aquele mesmo amor que recebemos de Deus!
“O amor não faz nenhum mal ao próximo, o amor é o cumprimento da lei” (Rom 13,9-10).
Disse Jesus:
“amai-vos uns aos outros. Nisso todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13:34-35).
Os mandamentos são regras que têm a ver com sentimentos de amor, de bondade, de fidelidade, e que se tornam Lei.
Aos dez caminhos de amor, aperfeiçoados por Cristo para defender o ser humano e orientá-lo rumo à verdadeira liberdade e felicidade, digamos «Sim!»
