
Para mim, José Wilker foi um dos artistas mais perfeitos da nossa dramaturgia. Digo isso pensando na naturalidade com que interpretava.
Havia momentos em que seu rosto já tinha dito tudo e ele ainda nem tinha aberto a boca. Um olhar mais demorado, um sorriso de canto, aquele sarcasmo que surgia quase sem aviso.
Quando a fala finalmente vinha, eu já estava envolvido pelo que ele tinha feito com o silêncio.
Também me encanta a paixão de Wilker pela arte. Ela aparecia tanto no prazer com que ele dava vida a um personagem quanto no entusiasmo com que falava de cinema.
É essa alegria de quem amava profundamente o próprio ofício que eu quero celebrar.
Vida pessoal
José Wilker nasceu em Juazeiro do Norte, no Ceará, e ainda menino se mudou com a família para Pernambuco. Em entrevista ao Memória Globo, contou que havia cinemas perto de onde morava, tanto em Juazeiro quanto em Olinda.
Quando a sessão era proibida para sua idade, ele dava um jeito de passar por baixo da cortina da entrada. Gosto dessa imagem. Antes de levar tantas pessoas ao cinema, Wilker era o menino curioso que fazia de tudo para entrar.
Aos 13 anos, respondeu a um anúncio para locutor de televisão. A vaga acabou sendo outra, a de figurante no teleteatro da TV Rádio Clube, no Recife.
Mais tarde, no Rio de Janeiro, chegou a estudar sociologia, mas deixou o curso para se dedicar ao teatro.
Na vida afetiva, foi casado com a psicóloga Elza Rocha Pinto e, anos depois, viveu uma relação com a atriz Guilhermina Guinle.
Teve duas filhas, Mariana, com Renée de Vielmond, e Isabel, com Mônica Torres.
A jornalista Claudia Montenegro era sua companheira quando ele morreu, em 5 de abril de 2014, no Rio de Janeiro.
Carreira
O teatro abriu caminho para a televisão. Wilker recebeu o Prêmio Molière de Melhor Ator por O Arquiteto e o Imperador da Assíria.
Em 1971, a convite de Dias Gomes, interpretou Zelito em Bandeira 2. Décadas depois, já consagrado na TV, voltaria à direção teatral com montagens como Palácio do Fim e Rain Man. Ao recordar as atuações do colega nos palcos, Antonio Fagundes disse no Domingão do Faustão: “Em teatro, principalmente, fez coisas antológicas.”
Mundinho Falcão
Duas versões de Gabriela dão a medida do seu alcance. Em 1975, foi Mundinho Falcão, jovem que chega a Ilhéus e desafia o poder dos coronéis. Em 2012, voltou à mesma história como o coronel Jesuíno. O primeiro me faz torcer pela mudança. O segundo me causa incômodo pela certeza com que exerce sua autoridade. Rever esses dois papéis é perceber quanto Wilker conseguia mudar de um personagem para outro, até no jeito de ocupar uma sala.
Vadinho
No cinema, o Vadinho de Dona Flor e Seus Dois Maridos me provoca uma mistura de encanto e impaciência. A graça do boêmio ajuda a entender por que ele era tão difícil de esquecer, mesmo depois de tudo que fazia Dona Flor passar.
Antonio Conselheiro
Já em Guerra de Canudos, como Antônio Conselheiro, Wilker me faz pensar na força que uma voz pode ter para reunir pessoas em torno de uma esperança comum.
Roque Santeiro
Em Roque Santeiro, ele era o homem que voltava vivo a uma cidade que fizera de sua suposta morte um negócio. Acho deliciosa a ironia de vê-lo circular por Asa Branca enquanto tanta gente temia o que sua presença podia revelar.
Giovanni Improtta
Em Senhora do Destino, o ex-bicheiro Giovanni Improtta tinha outro tipo de graça. Bastava vê-lo ajeitar a postura, pronto para soltar mais uma de suas frases, para eu já começar a rir. Susana Vieira, ao rever no Altas Horas uma cena dos dois, chamou Wilker de “o melhor marido que tive na televisão”. A cumplicidade que ela recordava também chegava a quem estava do outro lado da tela.
Wilker levou Giovanni ao cinema como ator e diretor. Tony Ramos, que participou do filme, recordou no Encontro: “Era intenso, um homem incrível e muito talentoso”. Sua paixão pelo cinema também aparecia quando comentava o Oscar. Eu gosto de pensar naquele menino que se esgueirava pela cortina e que, tantos anos depois, ajudava o público a olhar para os filmes com mais curiosidade.
Trabalhos selecionados
| Ano | Obra | Personagem ou função |
| 1970 | O Arquiteto e o Imperador da Assíria | Ator premiado com o Molière, teatro |
| 1971 | Bandeira 2 | Zelito, TV |
| 1975 | Gabriela | Mundinho Falcão, TV |
| 1976 | Dona Flor e Seus Dois Maridos | Vadinho, cinema |
| 1985 | Roque Santeiro | Roque Santeiro, TV |
| 1986 | O Homem da Capa Preta | Tenório Cavalcanti, cinema |
| 1996 | Sai de Baixo | Direção, TV |
| 1997 | Guerra de Canudos | Antônio Conselheiro, cinema |
| 2004 | Senhora do Destino | Giovanni Improtta, TV |
| 2006 | JK | Juscelino Kubitschek, TV |
| 2012 | Gabriela | Coronel Jesuíno, TV |
| 2013 | Giovanni Improtta | Ator e diretor, cinema |
| 2013–2014 | Amor à Vida | Herbert, TV |
Conclusão
Há uma parte da trajetória de José Wilker que merece ser lembrada junto com seus grandes papéis.
Ainda jovem, participou do Movimento de Cultura Popular em Pernambuco, ligado a iniciativas de alfabetização e cultura popular.
Dirigiu espetáculos pelo sertão e fez documentários.
Depois do golpe de 1964, que interrompeu aquele trabalho, ajudou a fundar no Rio o Grupo Chegança, que levou aos palcos Morte e Vida Severina.
Anos mais tarde, dirigiu a RioFilme e contribuiu para a circulação do cinema brasileiro.
Quando penso em tudo isso, volto ao olhar que me fez querer escrever esta homenagem. O mesmo artista que me fazia rir com um sorriso de canto dedicou parte da vida a fazer a arte chegar a mais gente. E, quando revejo uma de suas cenas, ainda me pego esperando aquele breve instante antes da fala.
É ali que sinto a saudade. José Wilker olha, e eu já sei que vale a pena escutar.
Redes sociais oficiais
O ator não tem um Youtube ou rede social, mas tem diversas entrevistas, trechos de trabalhos disponíveis. Há entrevistas do próprio artista no acervo do Memória Globo.
Assista o artista em filmes como Dona Flor e seus dois maridos, Bye bye tristeza, Xica da Silva, O homem da capa preta, os inconfidentes e Guerra dos Canudos e vai entender minha admiração!
Gostei muito de algumas redes sociais que mostram muito de sua memória:
https://www.instagram.com/acervozewilker
https://www.instagram.com/josewilkermemorias
https://www.facebook.com/groups/josewilkerjose
Que tal assistir um filme, ver um capítulo de novela, uma entrevista dele no youtubr, garanto que vai adorar!
Agradecimentos e fontes
Agradeço ao Memória Globo, ao Globo Teatro, ao Gshow e à Wikipédia pelos registros que ajudaram a reconstituir a trajetória de José Wilker e a recuperar as palavras de quem trabalhou com ele.
- Memória Globo — perfil e entrevistas de José Wilker
- Memória Globo — trabalhos na emissora
- Globo Teatro — trajetória nos palcos e na televisão
- Memória Globo — personagens de Roque Santeiro
- Gshow — Antonio Fagundes e colegas homenageiam Wilker no Domingão
- Gshow — Susana Vieira relembra a parceria no Altas Horas
- Gshow — Tony Ramos relembra José Wilker no Encontro
- Gshow — José Wilker fala de Giovanni Improtta no Programa do Jô
- Wikipédia — vida pessoal e filmografia
