
Há destinos que conquistam pelos monumentos. Outros, pelas paisagens. Zanzibar tem a rara capacidade de reunir os dois e ainda acrescentar aromas, música, fé e histórias que nem sempre são leves.
Cheguei a este arquipélago da Tanzânia atraído pelo azul quase inacreditável do oceano Índico. Mas logo percebi que, por trás de suas praias extraordinárias, havia um lugar muito mais complexo e fascinante.
A cada esquina, a sensação de estar diante de um encontro de mundos: África oriental, comércio árabe, influências persas, indianas e europeias. Zanzibar não é apenas um cartão-postal tropical. É uma ilha de memórias, contrastes e identidades.
Um nome, muitos encontros
A origem do nome Zanzibar costuma ser associada à expressão persa Zang-bār, frequentemente interpretada como “costa dos negros”. Hoje, Zanzibar é uma região semiautônoma da Tanzânia, formada principalmente pelas ilhas de Unguja, onde está a cidade histórica de Zanzibar e Pemba. Sua história é inseparável das rotas marítimas do Índico.
Por séculos, mercadores atravessaram essas águas transportando tecidos, marfim, especiarias e outros produtos. Também houve um comércio brutal de pessoas escravizadas. Falar de Zanzibar com encanto exige reconhecer esse passado: a beleza da ilha não apaga as marcas deixadas pela história.
Stone Town: portas que guardam séculos
Na parte antiga da cidade de Zanzibar, conhecida como Stone Town, as vielas estreitas, as fachadas de coral e as portas de madeira esculpida contam histórias de riqueza, trocas culturais e poder.
O centro histórico é Patrimônio Mundial da UNESCO. Gosto de lugares que convidam a caminhar sem pressa; aqui, cada passagem parece levar a outro capítulo.

Entre os pontos de interesse estão o antigo forte, a Casa das Maravilhas, cuja visitação depende de sua situação de conservação, os mercados e a área da antiga comercialização de pessoas escravizadas, hoje associada à Catedral Anglicana e a espaços de memória.
São visitas que ajudam a compreender a ilha para além de suas praias.
Stone Town também guarda a memória de um de seus filhos mais conhecidos: Freddie Mercury.
Freddie Mercury: uma voz que nasceu aqui
Foi em Zanzibar que nasceu, em 1946, Farrokh Bulsara, o futuro Freddie Mercury, vocalista do Queen. Filho de uma família de origem parsi, ele passou parte da infância na ilha antes de viver em outros lugares e se tornar um dos grandes nomes da música mundial. Encontrar referências a Freddie em Stone Town é lembrar como uma pequena ilha pode se conectar à cultura de todo o planeta.
O museu dedicado ao artista é uma parada curiosa para fãs, mas a história merece nuance: os locais associados à sua infância nem sempre são apresentados com a mesma precisão por diferentes atrações turísticas. Vale aproveitar a visita como uma aproximação afetiva de sua trajetória, sem confundir homenagem com reconstituição histórica exata.
A ilha das especiarias e das cicatrizes
Cravo-da-índia, canela, cardamomo, noz-moscada e pimenta ajudaram a transformar Zanzibar em um centro comercial conhecido como “Ilha das Especiarias”. Uma visita a uma plantação permite conhecer plantas, cheiros e sabores que, por séculos, movimentaram economias e cozinhas distantes.
Mas essa prosperidade conviveu com sistemas de dominação e escravidão, especialmente sob o sultanato de Omã no século XIX. O antigo mercado de pessoas escravizadas de Zanzibar é parte indispensável da história regional. Não se trata de reduzir a ilha à dor, e sim de respeitar quem viveu nela e quem foi privado de liberdade.
A vida cotidiana e a presença do Islã

A vida nas ruas mostra uma Zanzibar que vai muito além dos resorts.
A maioria da população de Zanzibar é muçulmana, e essa presença aparece no ritmo da cidade, nos horários de oração, nas vestimentas e na vida comunitária.
Observei uma ilha em que tradições religiosas convivem com a atividade comercial, as escolas, os mercados e o turismo.
Para quem visita, respeito é parte essencial da experiência: vestir-se de forma discreta em bairros e espaços religiosos, pedir autorização antes de fotografar pessoas e observar as regras locais, especialmente durante o Ramadã.
Nas imagens do caminho, chamam atenção crianças, famílias, comerciantes, pequenas lojas e o movimento da cidade. É nesse cotidiano que o destino ganha rosto e profundidade. Não basta fotografar o mar; é preciso perceber que existe uma sociedade inteira vivendo ao lado dele.
Praias que parecem irreais

Rochas esculpidas pelo tempo e água em incontáveis tons de azul.
E então chega o mar. É difícil exagerar ao descrever o contraste entre a areia branca, as formações rochosas e a água que passa do transparente ao verde-claro e ao azul profundo.
As fotografias revelam barcos tradicionais, falésias, praias quase vazias e um horizonte que parece não terminar.
As praias do norte, como Nungwi e Kendwa, são procuradas por quem deseja nadar e contemplar o pôr do sol.
Na costa leste, lugares como Paje e Jambiani combinam paisagens belíssimas com a força das marés e atividades como kitesurfe.
O fenômeno das marés muda radicalmente a faixa de areia e a profundidade da água; por isso, é importante consultar as condições locais antes de escolher passeios e horários de banho.
O pôr do sol no Índico: um daqueles momentos em que a viagem pede silêncio.
Ao entardecer, os barcos recortam a linha do horizonte, o céu se acende em laranja e o mar parece guardar a luz por alguns minutos a mais.
Foi uma das imagens que mais me fizeram entender o encanto de Zanzibar: a natureza, ali, não precisa de efeitos especiais.




Passeios que ampliam a viagem
Quem tiver tempo pode conhecer a floresta de Jozani, famosa pelos macacos-colobos-vermelhos de Zanzibar, espécie endêmica; fazer passeios de barco com operadores responsáveis; visitar bancos de areia e recifes com cuidado ambiental; ou explorar pequenas comunidades costeiras.
A chamada Prison Island (Changuu) também desperta interesse: seu nome se liga a instalações construídas para uma prisão que não chegou a operar como inicialmente planejado, e a ilha teve outros usos, inclusive de quarentena. Atualmente é conhecida também pelas tartarugas-gigantes, cuja observação deve respeitar o bem-estar dos animais.
A gastronomia acompanha essa mistura cultural. Arroz temperado, peixes, frutos do mar, coco, mandioca e especiarias aparecem em preparos de influência suaíli, árabe e indiana. Experimentar um prato local é outra maneira de compreender os caminhos que chegaram à ilha.
Dicas para planejar Zanzibar
Como chegar — O aeroporto internacional Abeid Amani Karume, em Unguja, recebe voos internacionais e conexões via grandes centros africanos e do Oriente Médio. Também existem ferries entre Dar es Salaam e Zanzibar. Confira horários, companhias e condições de mar antes de embarcar.
Quando ir — Em geral, junho a outubro costuma oferecer clima mais seco e temperaturas agradáveis. Janeiro e fevereiro também podem ser bons meses, embora mais quentes. As chuvas mais intensas costumam ocorrer de março a maio; há ainda um período de chuvas curtas por volta de novembro e dezembro. O clima varia de ano para ano.
Documentos e cuidados — Brasileiros devem verificar antecipadamente as regras atualizadas de visto da Tanzânia, a validade do passaporte, as orientações sanitárias e as exigências específicas de seguro para visitantes de Zanzibar, que podem mudar. Consulte os canais oficiais antes de comprar a passagem. Para passeios, escolha guias e embarcações licenciados; use proteção solar e respeite correntes e marés.
Quanto tempo ficar — De cinco a sete dias permitem combinar Stone Town, uma experiência ligada às especiarias, praias e um ou dois passeios de natureza sem transformar a viagem em corrida. Se possível, reserve ao menos uma noite na cidade histórica e outras junto ao mar.
O que levo de Zanzibar
Vim em busca de praias que pareciam impossíveis. Encontrei, sim, águas transparentes, barcos elegantes e pores do sol memoráveis. Mas encontrei também uma história de comércio e violência, uma cultura suaíli vibrante, a força da fé, a memória de Freddie Mercury e o cotidiano de uma população que dá sentido a tudo isso.
Viajar, para mim, é justamente permitir que a beleza abra a porta para o conhecimento. Zanzibar me lembrou que o paraíso pode ser muito mais interessante quando deixamos de vê-lo apenas como paisagem.
Zanzibar me recebeu com o azul do mar, com história e está em meus pensamentos.
Referências úteis: UNESCO — Stone Town of Zanzibar (whc.unesco.org); Tanzania Immigration (immigration.go.tz); Zanzibar Tourism (zanzibartourism.go.tz); Ministério das Relações Exteriores do Brasil (gov.br/mre).






