
Outro dia me veio uma pergunta: “E se, em vez de me comparar, eu escolhesse me reconhecer?” Parece uma troca pequena, mas talvez ela seja capaz de mudar profundamente a maneira como olhamos para nós mesmos.
Vivemos cercados pelas histórias de outras pessoas. Vemos a conquista profissional de alguém, a viagem, o relacionamento, o corpo, a casa, a família, o sucesso, a felicidade estampada em uma fotografia… e, quase sem perceber, começamos a fazer contas dentro de nós:
– ela já conseguiu;
– ele chegou tão longe;
– todo mundo está avançando;
– E eu?
Talvez você já tenha sentido isso, eu também, pois o problema não está em admirar a caminhada de alguém. Afinal a admiração pode nos inspirar, despertar possibilidades e até nos mostrar caminhos que ainda não havíamos imaginado. O problema começa quando transformamos a vida do outro em uma régua para medir a nossa.
Eu conheço os meus bastidores. Do outro, vejo apenas uma parte.
Existe uma injustiça silenciosa em muitas comparações. Quando olho para a minha vida, conheço tudo. Conheço meus medos, minhas dúvidas, as noites em que não dormi direito, as decisões que ainda não consegui tomar, os planos que deram errado, as inseguranças que ninguém vê, as vezes em que precisei recomeçar etc.
Mas, quando olho para o outro, normalmente recebo apenas fragmentos. Vejo a conquista, mas não necessariamente conheço o preço que ela exigiu. Também vejo o resultado, mas não acompanhei todo o processo. Vejo o sorriso, mas não sei quais lágrimas vieram antes dele. E, em tempos de redes sociais, essa diferença pode se tornar ainda maior.
Temos acesso diário a pequenas vitrines da vida de centenas de pessoas, porém uma vitrine não é uma vida inteira. Por isso, comparar meus bastidores com aquilo que consigo enxergar do palco de alguém dificilmente será uma comparação justa.
Talvez eu não esteja atrasada
Existe outra pergunta que considero ainda mais importante: Atrasada em relação a quê?À vida de quem? Ao tempo de quem? À expectativa de quem?
Cada pessoa chega à vida carregando uma combinação única de história, experiências, oportunidades, dificuldades, talentos, relações e escolhas.
A Psicologia Positiva me ensinou a olhar com muito carinho para as potencialidades individuais. Quando estudamos as forças de caráter, por exemplo, percebemos algo belíssimo: todos possuímos forças, mas elas aparecem em combinações e intensidades diferentes.
Criatividade, coragem, perseverança, humor, curiosidade, amor, esperança, gratidão, liderança, inteligência social, amor pelo aprendizado, e tantas outras.
Talvez aquilo que floresça facilmente em alguém esteja apenas começando a germinar em mim. E talvez eu tenha forças que aquela pessoa ainda esteja aprendendo a reconhecer nela mesma.
Não somos cópias. Somos possibilidades diferentes e como é enriquecedor ver equipes trabalhando com pessoas com diferentes forças juntas!
Comparação ou inspiração?
Tenho aprendido a fazer uma distinção importante. Quando olho para alguém e penso: Eu nunca serei como ela, provavelmente estou entrando no território da comparação. Mas quando olho e pergunto: “O que essa pessoa desperta em mim?”, posso transformar comparação em consciência.
Talvez eu descubra que não quero a vida daquela pessoa, mas a coragem que percebo nela. Ou talvez não queira sua carreira, mas a liberdade que imagino que ela conquistou. Talvez não queira sua casa, suas viagens ou seu reconhecimento, mas simplesmente quero sentir realização.
E quando consigo identificar o que realmente me toca, algo muda. O outro deixa de ser uma ameaça ao meu valor e pode se transformar em inspiração para o meu crescimento. Ou seja, eu volto para mim.
A pergunta que muda a direção
Em vez de perguntar: “Por que ainda não cheguei aonde aquela pessoa está?”, posso perguntar: “O que faz sentido para mim e para a minha caminhada neste momento?”
Essa pergunta devolve a autoria da minha própria vida, pois talvez o que faça sentido agora seja avançar, ou mudar, ou estudar, ou começar um projeto, ou abandonar algo que já não combina comigo, ou descansar. Talvez seja simplesmente permanecer onde estou por algum tempo, enquanto compreendo qual será meu próximo movimento.
Nem todo período aparentemente parado significa estagnação. A natureza nos ensina isso lindamente: uma semente debaixo da terra parece imóvel, mas existe muita vida acontecendo ali. Antes de florescer para o mundo, ela cria raízes. Talvez conosco também seja assim.
Reconhecer não significa acomodar
Existe uma diferença importante entre aceitar quem sou e desistir de crescer.
Quando reconheço minha caminhada, não estou dizendo “Já está tudo pronto”, estou dizendo: “Eu consigo honrar quem sou hoje enquanto continuo construindo quem desejo ser.”
Isso muda completamente nossa relação com o desenvolvimento pessoal, pois posso querer melhorar sem me rejeitar, desejar novas conquistas sem desprezar aquilo que já construí, aprender com alguém sem desejar me transformar nessa pessoa, posso admirar o jardim do outro sem deixar de cuidar das minhas próprias sementes.
Isso, para mim, é consciência.
Faça uma pausa e olhe para trás
Antes de pensar em tudo aquilo que ainda falta, experimente fazer um exercício diferente. Olhe para a pessoa que você era há cinco anos ou dez e pergunte a ela:
– O que ela ainda não sabia?
– O que você aprendeu desde então?
– Que situações pareciam impossíveis e você atravessou?
– Quantas decisões difíceis tomou?
– E quantas vezes recomeçou?
– Quantas pessoas ajudou?
– Quantos medos enfrentou?
Talvez você esteja tão concentrado na distância entre você e alguém que admira que tenha esquecido de perceber a distância entre quem você era e quem você se tornou. E essa caminhada também merece ser celebrada.
Um exercício de reconhecimento
Hoje, abra seu caderno e escreva sem pressa:
- Três coisas que você conquistou e quase nunca celebra.
- Três forças que reconhece em você.
- Uma dificuldade que ajudou você a crescer.
- Algo que você admira em outra pessoa e gostaria de desenvolver à sua maneira.
- Uma escolha que faz sentido para a sua vida, independentemente da opinião ou do caminho dos outros.
Depois complete: Hoje escolho reconhecer minha caminhada porquê…
E deixe as palavras chegarem. Talvez você descubra uma pessoa muito mais forte, interessante e inteira do que aquela que a comparação vinha permitindo enxergar.
Para refletir
Eu posso olhar para a conquista do outro e celebrar, admirar, aprender e me inspirar. Mas não preciso diminuir minha história para reconhecer a grandeza da história de alguém.
Hoje escolho trocar a comparação pela consciência. Olho para aquilo que já atravessei e reconheço minhas forças. Honro meu tempo, acolho aquilo que ainda estou aprendendo e continuo caminhando.
Porque florescer não significa chegar antes, significa encontrar as condições para revelar aquilo que existe de único dentro de nós. A minha história não precisa parecer com a de ninguém para ter valor e a sua também não.
E se, em vez de perguntar o quanto ainda falta, você agradecesse hoje por tudo aquilo que já floresceu em você?
Como pode melhorar? E o que mais é possível?
