
Hoje não quero escrever sobre o fim de uma existência. Quero escrever sobre a vida.
Porque existem pessoas cuja partida nos entristece, mas cuja existência foi tão intensa, tão generosa e tão cheia de significado que falar apenas da fim seria pequeno demais.
Laura Cardoso nos deixou depois de mais de oito décadas dedicadas à arte.
Mas Laura viveu. E como viveu!
Eu sempre admirei essa mulher.
Talvez porque nunca tenha enxergado nela apenas uma grande atriz. Sempre vi garra. Força. Coragem. Disciplina. Uma mulher que entrava em cena como quem respeitava profundamente o direito que havia conquistado de estar ali.
Laura não parecia simplesmente interpretar.
Ela acreditava.
Entregava-se.
Se fosse para amar, amava, assim como se fosse para sofrerm sofria e se precisasse ser dura, seu olhar parecia atravessar a televisão. Se fosse para fazer rir, encontrava humanidade até no menor gesto.
Havia verdade.
E talvez seja essa uma das maiores qualidades que um ator pode possuir: fazer com que, por alguns minutos, esqueçamos que estamos diante de uma representação.
Laura Cardoso conseguia isso.
Por isso, esta é uma homenagem à vida de Laura Cardoso.
Laurinda virou Laura. E Laura entrou para a história
Antes da grande atriz existiu Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni.
Nascida em 13 de setembro de 1927, no Bixiga, em São Paulo, filha de imigrantes portugueses, ainda criança brincava de teatro com os amigos do bairro.
Aos 15 anos, mesmo sem contar inicialmente com o apoio dos pais, decidiu seguir a profissão e começou a trabalhar em radionovelas na Rádio Cosmos. Foi ali que Laurinda começou a se transformar profissionalmente em Laura Cardoso.
Depois veio uma história que praticamente se confunde com o nascimento da própria televisão brasileira.
Laura esteve entre suas pioneiras. Passou pela TV Tupi e, em 1952, participou de Tribunal do Coração. Vieram Record, Excelsior, Cultura, Bandeirantes e Globo.
E vieram personagens.
Muitos.
Mais de uma centena de trabalhos, mais de 60 novelas e uma extensa presença também no cinema, no teatro, no rádio e na dublagem.
Quando olhamos sua trajetória, percebemos algo extraordinário: Laura atravessou tecnologias, linguagens, emissoras, formatos e gerações.
Começou quando o rádio fazia famílias inteiras imaginarem rostos através das vozes.

Participou do nascimento da televisão.
Viveu o teleteatro.
Viu surgir e crescer a telenovela brasileira.
Chegou à televisão em cores, aos grandes estúdios, ao streaming e às redes sociais.
E permaneceu Laura.
Em 2002, recebeu o Troféu Mário Lago pelo conjunto de sua obra. Em 2006, foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural. Ao longo da carreira acumulou ainda APCA, Shell, Grande Otelo e inúmeros outros reconhecimentos.
Sua história completa merece ser conhecida:
As muitas mulheres que existiram dentro de Laura
Seria impossível falar de Laura Cardoso sem falar das mulheres que ela colocou diante de nós.
Cândida, em Felicidade.
Isaura, em Mulheres de Areia.
Guiomar, em A Viagem.
Sinhana, em Irmãos Coragem.
Soraya, em Explode Coração.
Ruth, em Salsa e Merengue.
Yeda, em Meu Bem Querer.
Vó Carmem, em Chocolate com Pimenta.
Laksmi, em Caminho das Índias.
Caetana, em O Outro Lado do Paraíso.
Matilde, em A Dona do Pedaço.
E tantas outras.
Mas existe algo que considero ainda mais interessante do que enumerar personagens.
É compreender como Laura pensava essas mulheres.
Isaura — Mulheres de Areia
Isaura era mãe de Ruth e Raquel, duas filhas absolutamente diferentes. E Laura encontrou naquela mãe uma humanidade que ia além da divisão simples entre certo e errado.
Ao comentar por que Isaura parecia proteger mais justamente a filha problemática, Laura explicou:
“Mas amor incondicional ela tinha pelas duas.”
É uma frase simples.
Mas quem assistiu à novela sabe que Laura transformou essa contradição materna em sofrimento, proteção, culpa e amor.
Ela não interpretou apenas “a mãe das gêmeas”.
Ela interpretou uma mãe tentando amar duas filhas diferentes.
Guiomar — A Viagem
Depois veio Guiomar.
E quem assistiu a A Viagem dificilmente esqueceu aquela transformação.
A personagem era influenciada pelo espírito de Alexandre e passava a agir de maneira assustadoramente diferente.
A atuação foi tão convincente que Laura contou que uma mãe chegou a levar o filho para conhecê-la porque a criança tinha medo de Guiomar.
Laura precisou explicar ao menino que aquilo era apenas fantasia da televisão.
Existe elogio maior a uma atriz?
O público sabia racionalmente que Laura Cardoso era Laura Cardoso.
Mas, quando ela entrava em cena, acreditava em Guiomar.
Sinhana — Irmãos Coragem
Sinhana tocou a própria Laura profundamente.
Ao recordar uma cena da morte do marido da personagem, Laura dizia que aquela mãe lhe havia proporcionado “uma das maiores emoções” de sua vida interpretando um personagem.
Isso explica muito sobre sua arte.
Laura não parecia procurar personagens para mostrar Laura Cardoso.
Ela procurava Laura Cardoso dentro dos personagens.
E isso é completamente diferente.
A atriz que nunca quis ser maior do que a personagem
Talvez uma das declarações que melhor revelem quem foi Laura profissionalmente tenha sido dada quando falou sobre seu método de trabalho:
“Tem que dar importância e valor ao personagem e ao texto que te dão.”
E completava dizendo que nunca havia se preocupado em ser protagonista.
Que lição extraordinária para um tempo tão marcado pela necessidade de aparecer.
Laura não precisava que o personagem fosse grande.
Ela fazia o personagem crescer.
Essa talvez seja a diferença entre fama e grandeza.
A fama precisa de luz.
A grandeza, muitas vezes, ilumina.
E Laura iluminava.
Outra declaração sua parece hoje quase um testamento profissional:
“A gente se aposenta quando vai embora.”
Laura não dizia isso como frase de efeito.
Ela viveu dessa maneira.
Seu último papel em uma novela foi Matilde, em A Dona do Pedaço, em 2019. Mas sua relação com a arte não terminou ali. Em 2025, já aos 97 anos, participou do lançamento de Dona Rosinha, produção sobre abandono na velhice, e ainda recebeu sua estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo.
Trabalhar, para Laura, parecia não ser apenas profissão.
Era uma forma de continuar viva.
Laura falando sobre Laura
Há atores que conhecemos pelos personagens.
E há outros que se tornam ainda maiores quando os ouvimos falar sobre a própria vida.
Laura pertencia aos dois grupos.
Por isso, quem quiser compreender um pouco mais a mulher que existia por trás da atriz deveria assistir a duas conversas especiais.
Persona em Foco — Laura Cardoso
Nesta longa entrevista de 2015, Laura revisita momentos de sua trajetória e fala sobre sua carreira. É uma oportunidade preciosa de ouvi-la contando a própria história, com sua personalidade e memória.
Conversa com Bial — Laura Cardoso
Em novembro de 2020, aos 93 anos, Laura foi homenageada no Conversa com Bial, dentro das comemorações pelos 70 anos da televisão brasileira.
O programa reuniu lembranças de sua carreira e depoimentos de nomes como Fernanda Montenegro, Lima Duarte e Tony Ramos. Laura se emocionou revendo personagens e também com o depoimento de seu bisneto.
Assista aos vídeos da entrevista de Laura Cardoso no Conversa com Bial
Há também o registro em áudio da conversa completa:
Laura Cardoso conversa com Pedro Bial — Gshow
Laura nas redes
A notícia de sua morte foi divulgada justamente pelo perfil oficial da atriz, administrado por seu bisneto Fernando Faria.
Instagram oficial de Laura Cardoso — @atrizlauracardoso
https://www.instagram.com/atrizlauracardoso/p/DYK2TRyFnFn
De um fã para Laura
E agora eu abandono qualquer tentativa de escrever como articulista.
Quero terminar simplesmente como Cosmo.
Como espectador, brasileiro e fã.
Laura, eu gostava de você.
Gostava da sua voz.
Daquele olhar que podia ser doce numa cena e, minutos depois, tornar-se duro, desconfiado, sofrido ou assustador.
Gostava das suas velhinhas fortes, das mães, das avós, das mulheres sofridas, engraçadas, bravas, amorosas, contraditórias.
Gostava principalmente de perceber que, mesmo depois de tantas décadas, você continuava respeitando cada personagem como se ainda precisasse provar que era uma boa atriz.
Não precisava.
Nós já sabíamos.
Talvez você tenha pertencido a uma geração que compreendia uma coisa muito bonita: ninguém se torna gigante dizendo que é gigante.
Torna-se gigante trabalhando.
Você trabalhou.
Estudou.
Representou.
Emocionou.
Envelheceu diante de nós sem esconder o tempo, como se cada ruga fosse também parte de seu currículo.
E continuou.
Hoje dizem que Laura Cardoso morreu aos 98 anos.
Eu prefiro escrever diferente.
Laura Cardoso viveu 98 anos.
E durante mais de oito décadas emprestou pedaços dessa vida para centenas de personagens que entraram nas casas, nas lembranças e na história de milhões de brasileiros.
A atriz saiu de cena.
As personagens ficaram.
A obra ficou.
A memória ficou.
E o amor de quem a admirou também fica.
Obrigado, Laura, pelas lágrimas, pelas risadas.
E obrigado, principalmente, por ter demonstrado durante toda uma vida que amar aquilo que fazemos talvez seja uma das maneiras mais bonitas de permanecer neste mundo.
Com meu carinho, meu respeito e minha admiração de fã.
