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The Ocean Cleanup: a maior limpeza da história dos oceanos… ou o começo de uma nova era?

Imagem criada pelo chatgpt

Eu vi um conteúdo no Instagram da @stenastrada e ele me fez parar por um minuto.

Não por “mais um post de sustentabilidade”, mas porque ele aponta para algo raro: uma solução tecnológica tentando operar em escala planetária.

O nome por trás disso é The Ocean Cleanup, uma organização sem fins lucrativos que desenvolve e amplia tecnologias para remover plástico já acumulado no oceano e, ao mesmo tempo, interceptar o lixo antes que ele chegue ao mar.

O objetivo declarado é ousado: remover 90% do plástico flutuante dos oceanos até 2040. Fonte: The Ocean Cleanup+1

A pergunta que fica — e que vale um artigo — é direta:

Isso pode se tornar a maior limpeza da história dos oceanos?

O problema: o oceano não “junta lixo”, ele recebe o lixo do mundo

A forma mais conhecida do problema é a Great Pacific Garbage Patch (GPGP), a maior concentração de plástico em alto-mar, localizada entre Havaí e Califórnia.

Segundo os dados divulgados pela própria The Ocean Cleanup, análises científicas realizadas por sua equipe estimaram cerca de 1,8 trilhão de pedaços de plástico na região, com massa aproximada de 100.000 toneladas. Fonte: The Ocean Cleanup+1

Esses números não são só “impactantes”: eles ajudam a visualizar o tamanho do desafio.

Cem mil toneladas não é uma “ilha de lixo”; é um sistema de poluição difusa, espalhado por enormes áreas, mudando com correntes, ventos e temporadas.

A estratégia em duas frentes: limpar o legado e fechar a torneira

A The Ocean Cleanup se posiciona com uma lógica simples (e difícil):

Limpar o que já está nos giros oceânicos.

Impedir que mais plástico entre no mar, principalmente por rios

Essa visão aparece de forma central nas páginas do projeto e na parceria apresentada na plataforma de objetivos de desenvolvimento da ONU: não basta catar o que está no oceano se os rios continuarem alimentando o problema. Fonte: The Ocean Cleanup+1

1) Alto-mar: o System 03

O projeto afirma que hoje opera a limpeza do GPGP com o System 03. A ideia é usar um grande sistema flutuante para concentrar e coletar resíduos, retirando-os periodicamente para triagem e destinação.

2) Rios: “Interceptors” e contenção na origem

Do lado dos rios, a organização trabalha com sistemas de interceptação (“Interceptor”) e descreve a meta de atuar em rios como parte do esforço para reduzir a entrada de plástico no mar.

Fonte: The Ocean Cleanup

Números que mudaram o jogo: quanto eles dizem que já retiraram?

A organização publicou um balanço chamando 2024 de “ano recorde”, afirmando ter removido 11,5 milhões de quilos de lixo de oceanos e rios naquele ano, mais do que a soma de todos os anos anteriores, e relatando o marco de 20 milhões de quilos removidos até novembro de 2024.

Fonte: The Ocean Cleanup+1

Além disso, a cobertura de imprensa também já registrou “extrações recordes” em operações no GPGP, como uma ação divulgada pela ABC News (EUA) em 2023.

Fonte: ABC News

Esses números são grandes?

Sim.

Eles significam que o oceano está “resolvido”?

Não.

Mas indicam algo relevante: o projeto saiu do campo do “conceito” e entrou no campo da operação contínua com resultados mensuráveis.

Quem apoia (e por que isso importa)

Projetos de escala global dependem de engenharia, logística, navios, manutenção e governança e isso custa caro.

Por isso, olhar “quem apoia” ajuda a medir a robustez e a seriedade do esforço.

A própria The Ocean Cleanup lista parceiros e apoiadores, incluindo:

  • Kia (parceria plurianual; desenvolvimento de uso do plástico retirado do GPGP em acessórios automotivos)
  • Deloitte (apoio pro-bono em consultoria desde 2018)
  • Governo dos Países Baixos (apoio institucional e operacional)
  • Macquarie (financiamento por período de anos)
  • Société Générale (apoio financeiro por anos)
  • Coldplay (parceria cultural e produtos usando plástico interceptado em rios)
  • #TeamSeas (campanha de creators com destinação de recursos para ações de remoção)
  • UNDP (parceria de implantação e articulação local) The Ocean Cleanup

Isso não “prova” perfeição, mas mostra que há capital reputacional e governança envolvidos.

Então… é a maior limpeza da história?

Depende do critério.

Se o critério for aspiração e escala planejada, o projeto está entre os mais ambiciosos já propostos: 90% do plástico flutuante até 2040.

Font The Ocean Cleanup+1

Se o critério for massa removida reportada em um único ano, 2024 foi apresentado pelo próprio projeto como um salto histórico (11,5 milhões de kg). Fonte: The Ocean Cleanup+1

Mas há um ponto essencial para a Comudsaber sustentar credibilidade:

A crítica séria também existe (e precisa aparecer)

A grande imprensa e análises independentes já destacaram desafios e controvérsias:

  • Viabilidade e dificuldades técnicas: a Reuters já descreveu obstáculos e desafios do projeto para cumprir promessas, lembrando que operar em alto-mar é caro, complexo e sujeito a falhas. Fonte: Reuters
  • Risco de “solução incompleta”: análises críticas apontam que limpeza em mar aberto pode ser insuficiente se não houver corte na produção e no descarte inadequado; e que custos podem ser enormes dependendo da meta e do que se considera “limpar”. Fonte: Dialogue Earth

Ou seja: limpar é necessário, mas não pode virar desculpa para continuar sujando.

O que realmente faria essa iniciativa “entrar para a história”

Se a The Ocean Cleanup quiser ser lembrada como “a maior limpeza”, três coisas precisam caminhar juntas:

Transparência radical de métricas

(quanto removeu, onde, em que período, com que método, e como destinou o resíduo)

Prevenção acima de marketing

(interceptar em rios e zonas costeiras, onde o custo-benefício pode ser maior)

Pressão por política pública e indústria responsável

(regulação, redução de plástico descartável, logística reversa, economia circular)

Porque o oceano não precisa apenas de heróis com redes gigantes.

Ele precisa de um mundo que pare de empurrar o problema para dentro dele.

Para fechar

O que eu vi no post da @stenastrada é mais do que uma “boa notícia”: é um lembrete.

Quando tecnologia encontra propósito, a esperança deixa de ser abstrata.

Mas a pergunta mais madura não é “quem vai limpar?”.

É: o que cada setor (governo, empresas e cidadãos) vai fazer para que não haja mais o que limpar?