Skip to content

Corpus Christi

Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão

A festa de Corpus Christi, embora tenha sido instituída oficialmente pela Igreja Católica no século XIII (pelo Papa Urbano IV, em 1264), tem suas raízes na Última Ceia, que Jesus celebrou com seus discípulos, na noite de despedida, antes da sua Prisão e Morte. 

Foi durante essa refeição, que Jesus partiu o pão e distribuiu-o aos discípulos dizendo:

Isto é o meu corpo, que será entregue por vós”. 

Depois passou o cálice a eles, dizendo: 

Este é o meu sangue, que será derramado por vós e por todos

(Mt 26,27-28).

E no final da Ceia, ainda disse: 

Fazei isso em memória de mim

(Lc 22,19; I Cor 11,24). 

Assim os apóstolos, já na Ceia, puderam tomar parte, de forma profética, do sacrifício de Jesus, que, de forma histórica, ainda iria acontecer sucessivamente no Calvário. 

Agora, até hoje, as palavras e gestos de Jesus, na Última Ceia e no Calvário, se repetem na liturgia das Missas celebradas no mundo inteiro.

Não como simples recordação de um fato do passado, mas como atualização do Sacrifício e de Doação de amor de Cristo por nós realizado na Cruz. 

Portanto, participar da Missa, é como se estivéssemos presentes também ali, ao redor da mesa sagrada e ao pé da Cruz, quando Jesus entrega sua vida por amor de nós. 

Em outras palavras, a Missa torna presente para nós o sacrifício de Jesus que aconteceu no calvário em Jerusalém há 2 mil anos, mas que, misteriosamente, é tornado presente todas as vezes que se celebra a Missa para anunciar a morte de Cristo e proclamar a sua ressurreição esperando que ele volte

Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição.

Vinde, Senhor Jesus!

Por isso, dizemos que a Missa é o memorial do sacrifício de Jesus, não uma simples recordação, mas atualização da sua morte e ressurreição salvadoras para nós, pois, nela, Jesus ainda se oferece ao Pai para obter o perdão para os nossos pecados e nos salvar. 

O sacerdote, no momento da Consagração, pronuncia as mesmas palavras que Jesus disse na Última Ceia, e nesse momento o pão e o vinho se tornam o Corpo doado e o Sangue derramado do Senhor na Cruz por nós, nos une a Ele e entre nós. 

Com a ceia eucarística, os discípulos de então e de hoje, têm verdadeiramente acesso a um evento de salvação, de outra forma, inacessível: à morte e à ressurreição de Cristo e nossa. 

É neste sentido que a Igreja, celebrando a Eucaristia, “lembra” a vida de Jesus, uma vida como dom de amor por nós e, nesta memória, encontramos força e a direção para entrar, por nossa vez, com tudo de nós mesmos na lógica do presente que ele nos doou. 

Ah, Se o meu povo me escutasse!  Se Israel seguisse meus caminhos

(salmo 80).

Multidão de pessoas

Descrição gerada automaticamente com confiança média

A comunhão com o Senhor não é um mistério que se celebra somente na liturgia na Igreja, com gestos e palavras, essa tem implicações na vida do dia a dia, que é tornar Jesus presente no sacramento e no mundo, através da caridade, nos nossos gestos de Amor para com o próximo. 

Nesse sentido, no evangelho de João é particularmente eloquente, pois nele, não se refere ao detalhe do partir o pão, mas ao lava-pés, gesto simbólico, com o qual Jesus mostra que toda a sua vida, assim como a sua morte então iminente, nada mais é do que um gesto de doação, de serviço e de partilha (Jo 13,1-20) que culmina na ressurreição e vida.

A Eucaristia que a Igreja celebra é o sacramento com o qual toda a nossa vida é chamada a concentrar-se naquele gesto da doação suprema de Jesus, que dá sentido à vida, não só à vida de cada um, mas também à história humana na sua totalidade. 

Festa de Corpus Christi

Pessoas andando no tapete vermelho

Descrição gerada automaticamente com confiança média

É assim que os católicos celebram anualmente a festa de Corpus Christi (Corpo de Cristo) que é certamente uma das solenidades mais populares. 

Quer pelo seu significado, que recorda a presença real de Cristo na Eucaristia, quer pelo estilo da celebração: uma festa do povo. 

Em quase todas as cidades, dioceses e paróquias se realizam a Santa Missa, as procissões pelas ruas, uma representação visual de Jesus percorrendo os caminhos da vida do ser humano, como testemunho da nossa veneração e adesão a Cristo que dá, o seu corpo e sangue, para nos alimentar do seu amor e nos tornar participantes da sua vida na glória do Pai, no céu.

No entanto, se a celebração eucarística e a festa de Corpus Christi não encontram expressão prática na vida, certamente, estas surgem como sinais vazios. 

A não correspondência da memória do sacrifício de Cristo com a nossa vida, é suficiente para tornar esses sinais falsos e vazios. 

Pessoas andando na calçada ao lado de um tapete

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

Tradição

A tradição dessa comemoração de Corpus Christi que, por sorte, ainda sobrevive em muitas partes do mundo, onde a Eucaristia atravessa as ruas das cidades e dos bairros, enfeitadas com flores, cores e ornamentos, reafirma publicamente, q todas as pessoas que têm fé precisam que, finalmente passe no meio de nós, um homem como Jesus. 

Sim, o Senhor deve continuar a andar por nossas ruas como fez em seus anos de vida terrena na Palestina. 

Procissão

A procissão com aquela Hóstia que se tornou alimento de vida eterna para todos, nos mostra, no exterior da Igreja, até onde chega o amor de Deus por nós. 

E ao mesmo tempo, manifesta o ilimitado e extremo amor de Deus, que contesta nosso modo de vida limitado e mesquinho, o nosso instinto egoísta de querer reter tudo por nós mesmos. 

Reflexão

Há ainda, mais uma reflexão a ser feita, em frente a outra procissão que continua a cada dia de Corpus Christi a atravessar as ruas das nossas cidades: se trata daquela procissão dos pobres, dos imigrantes, dos ambulantes, nômades, dos desgarrados e excluídos que continuam a percorrer nossas cidades. 

Grupo de pessoas na rua com prédio em cima

Descrição gerada automaticamente

Esses também são, para nós cristãos, o “corpo de Cristo”; e a longa fila deles é a procissão dos membros feridos daquele Corpo Santo. 

Pelos evangelhos sabemos que neles têm Cristo e não menos real, que na Eucaristia semanal dos cristãos.

O vínculo do Senhor com os pobres é inseparável. Do mesmo modo, a presença de Jesus na Eucaristia e nos pobres são, de certo modo, inseparáveis. 

É um ensinamento unânime e constante dos Santos Padres antigos, como São João Crisóstomo (*348- † 407), que um dia disse: 

Se você quer honrar o corpo de Cristo, não o despreze quando estiver nu. Não honre o Cristo Eucarístico com vestes de seda, enquanto fora do templo você negligencia este outro Cristo que sofre de frio e nudez

(São João Crisóstomo, Homilias). 

Padre religioso, trabalha na paróquia São João Batista do Brás.