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Uma América, dois Brasis

Aqui nos Estados Unidos, a moeda de 25 centavos, ou 25 cents, é também chamada de quarter, pois equivale a um quarto de um dólar. Mas muitos brasileiros que chegaram aqui para fazer a América, sem ter feito Cultura Inglesa ou intercâmbio na época do colégio, inventaram um novo nome para a moeda: a quara.  

Assim como rebatizaram a serra elétrica meter saw de marisol. Estacionar virou “parquear”, corruptela de park, sua tradução em inglês.  

Muitos imigrantes que chegam aqui para trabalhar na construção, ou como babás e diaristas em casas de família, fazem um mix com sons do sotaque americano e a lógica brasileira. E assim vamos nós, sempre criativos, a inventar neologismos fonéticos no dia-a-dia novaiorquino. 

Brasileiro Imigrante

Quando o brasileiro vira imigrante traz não só a criatividade e o jeitinho, mas também as nossas grandes diferenças sociais. 

A comunidade brasileira no estado de Nova York é imensa, mas está bem dividida entre ricos e pobres, documentados e não documentados; ou os que circulam com desenvoltura no universo americano e os que vivem em enclaves brasileiros. 

Entre esses últimos, estão pessoas que saíram do Brasil apenas fisicamente, mas a mente e o espírito permanecem lá.  

A maioria só assiste a programação da Globoplay, fala português o tempo todo, só convive com brasileiros, ou no máximo portugueses ou outros latino-americanos. 

Em casa eles ainda comem produtos importados do Brasil, comprados em lojas brasileiras que vendem desde biscoito de polvilho a queijo Catupiry, passando pelo sabão Omo e sabonete Phebo. 

Anos atrás, conheci uma senhora que morava em Mt. Vernon, uma cidade no condado de Westchester com uma grande comunidade de brasileiros e portugueses. Ela comentava com propriedade todo o noticiário político e as fofocas de artistas do Brasil, mas quando mencionei o presidente dos Estados Unidos ela não tinha certeza do nome dele.  

De todos os brasileiros que conheci nessa situação, a maioria diz que vai voltar ao Brasil correndo depois de fazer o sonhado pé de meia.

Imigrantes legalizados

De outro lado, morando em bairros e subúrbios de classe A ou B, há os imigrantes ou expatriados legais, os que chegam aqui com visto de trabalho porque são executivos de empresas, diretores de bancos, engenheiros, experts em tecnologia. 

Muitos conseguem um visto permanente, ou green card, depois de pouco tempo. 

Seus filhos acabam indo para universidades americanas, falam inglês quase sem sotaque e acabam se inserindo na cultura daqui ao longo dos anos. 

Há também os que, como eu, se casaram com um americano ou residente legal e aqui criaram sua família, com filhos já nascidos nos Estados Unidos. Dos que conheço nesse grupo, poucos retornam ou sonham retornar ao Brasil tão cedo.

Há brasileiros aqui fazendo muita coisa boa. E esse é um traço comum de todas as comunidades de imigrantes vindas de países em desenvolvimento: nós, assim como o resto da América Latina e tantos outros lugares onde há muita pobreza, desigualdade e vida difícil, acabamos por exportar o que há de melhor em talento humano. 

Quem tem cultura vem fazer carreira.

Quem pode estudar, vem fazer mestrado ou doutorado e acaba sendo recrutado para um bom emprego aqui mesmo. 

E quem não tem muito estudo vem e dá o melhor de si, aprende ofícios e progride. O Brasil perde talentos nos dois extremos da escala social. 

Imigrantes não legalizados

Mais do que criativos e esforçados, eu considero esses imigrantes “ilegais”, como se diz aqui, grandes heróis de um tempo onde as desigualdades entre o mundo rico e o pobre são cada vez piores. 

Heróis porque são tão brasileiros quanto eu, que vivo aqui com documentação legal há tanto tempo e vou para o Brasil quando quero. 

Quando cheguei aqui, com visto profissional e prestes a me casar com um cidadão americano, eu já falava a língua muito bem, já tinha carreira e duas faculdades concluídas. 

Eu não sei se teria a garra de entrar aqui sem saber o que seria do meu destino, sem falar uma palavra de inglês, sem saber no que iria trabalhar. Teria que aprender a língua mais ou menos, na marra, e suar a camisa por anos, sem férias, seguro saúde ou documentação legítima. Sem poder visitar família no Brasil. 

Alguns trabalham em múltiplos jobs para mandar dinheiro suficiente para custear uma escola particular para os filhos, para que estes tenham mais oportunidades. 

Eu, que estou aqui há 22 anos e que vejo meus dois filhos americanos todos os dias, não consigo imaginar o tamanho da saudade. É só parar para pensar em ficar anos a fio sem ver seus próprios filhos crescerem, sem acompanhar esses anos tão preciosos da infância e da juventude. Tudo sacrificado por uma educação que o nosso Brasil deveria dar a todos. E de graça.

Inês escreveu o livro “Days of Bossa Nova” e nós da Comud recomendamos!

Days of Bossa Nova (English Edition) por [Ines Rodrigues]