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Gratidão pela abolição

Gratidão! 

Acredito que você tenha lido ou ouvido essa expressão ao menos uma vez ao longo dos últimos dias. 

Na verdade, nos meses passados temos ouvido uma enxurrada de “Gratidão!”, especialmente nas redes sociais. 

À primeira vista, poderíamos concluir que isso é bom, afinal, quem seria contra a gratidão, a empatia, a resiliência, entre outras expressões sazonais de bons sentimentos?

Nesta realidade cada vez mais polarizada em que vivemos, percebemos que os ânimos estão à flor da pele. 

A rivalidade das torcidas organizadas de décadas passadas parecem estar presentes em qualquer situação em que possa haver opiniões diferentes e até mesmo naquelas ocasiões em que não cabem opiniões, mas apenas fatos. 

Para estar do lado certo, vale a pena até mesmo criar um lado errado, mesmo que ele seja fake, mesmo que ninguém tenha essa suposta visão errada. Afinal, de que adianta estar certo se, do outro lado, não há ninguém errado sobre quem eu possa tripudiar. 

É nesse mundo que vemos explodir #gratidão.

Sou um ser humano negro e, ao aproximarmo-nos da icônica data do 13 de maio, não poderia deixar de dizer “gratidão pela abolição”.

Gratidão por após séculos tratando os seres humanos negros como objetos, terem chegado à conclusão de que, de fato, éramos pessoas.

Anúncio de venda de escravo no Diário de Pernambuco.
Fonte: Diário de Pernambuco, 1829
Mesmo “com ferro no pescoço” e com “uma ferida na canela direita”, Sebastião do Rosário tentou fugir da sua condição de escravo. Os anúncios de escravos fugidos eram parte obrigatório dos jornais brasileiros do período.
Fonte: Diário de Pernambuco, 1829

Gratidão por após nos terem gentilmente nos abrigados sob os vossos tetos, ou melhor, sob os vossos assoalhos, nas senzalas, nos terem permitido construir nossos barracos nas encostas, várzeas e outros tantos terrenos vulneráveis.

Rio de Janeiro a favela da Rocinha Excursão de meio dia com guia local 2021

Gratidão por após nos terem açoitado várias vezes nos pelourinhos, terem nos permitido vagar pelas ruas, praças, cidades, bairros que carregam com orgulho e como homenagem o nome dos feitores, capitães do mato e cruéis senhores.

Gratidão por após terem se aproveitado dos favores e “mamado nas tetas” de nossas bisavós, avós, mães, irmãs e filhas, terem-nas promovidas a objetos de desejo e símbolos de prazer.

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Foto: Lucílio de Albuquerque

Gratidão por após terem nos deixado comer apenas feijão com o que se rejeitava da carne dos porcos, incluírem nossos caldeirões como iguarias no “Menu” de seus restaurantes.

 - Arquivo

Gratidão por após terem raspados nossas cabeças e prendido nossos cabelos crioulos, nos permitirem comprar os seus produtos que levam nosso dinheiro e nos deixam carecas. 

O que o Brasil precisa aprender sobre inclusão de pessoas negras no mercado
Inclusão de pessoas negras no mercado: panorama do Brasil (rockcontent.com)

Gratidão por após terem nos “poupado” por anos de ir à escola para podermos trabalhar, nos concederem a graça de frequentar seus colégios para aprender a ler o mundo com seus óculos.

Gratidão por após terem nos forçado a tarefas braçais específicas, reservarem exclusiva e gentilmente para nós, até hoje, essas funções nas telinhas e nas telonas.

Gratidão por após terem recorrido à ciência para justificar a inferioridade do nosso povo, evitarem ao máximo que nosso povo tenha acesso aos laboratórios de exames e de pesquisas.

Gratidão por após terem nos tratado como uma raça diferente da raça humana, terem feito o possível para que, mesmo após a afirmação da existência de uma só raça, ainda tivéssemos o gostinho do racismo.

Gratidão por após nos terem mantido por anos nas minas insalubres para ferir a nós e à terra em busca de metais e pedras preciosos, terem nos presenteado com uma lei de nome áurea.

Gratidão por após mais de três séculos de escravidão terem nos presenteado com a abolição, que quis abolir de uma vez por todas tudo o que sofremos, nossas histórias, nosso passado e, como bônus, o nosso futuro.

Gratidão aos que nos doaram a abolição foi o que sempre nos exigiram, como quem diz “Fizemos um favor a vocês. Agradeçam, pois poderia ser pior”.

De coração realmente agradecido, muito obrigado aos que continuam a lutar conosco pela liberdade!

Imagem de capa: Anúncios da época da escravidão mostram por que o Brasil precisa acertar as contas com o passado (abet-trabalho.org.br)

O autor do artigo “Gratidão pela escravidão” publicou o livro “Lições de um tempo de pandemia” e nós da Comud recomendamos seu livro.